Em Escola do Rock (2003), durante uma cena na sala de aula, o personagem de Jack Black acusa a influência da mídia sobre a música, em especial o Rock And Roll. Com considerável exagero e significante falta de ponderação, a tese tem o incrível poder de, no final das contas, fazer algum sentido. Não são exatamente essas as palavras – afinal, faz um bom tempo que vi esse filme -, mas é mais ou menos assim:
“Vocês querem aprender? Pois eu vou ensiná-los algo valioso. A lição de hoje é ‘o cara’ [The man]. Pois ‘o cara’ está em todos os lugares. ‘O cara’ está na sua casa, no seu emprego e nas ruas. ‘O cara’ está no final desse corredor. Ele nunca está satisfeito. ‘O cara’ quer acabar com tudo o que você tem, tudo. Assim, ‘o cara’ derrete geleiras, desmata a Amazônia, fabrica bombas e inventa guerras. Quando nada podia ser pior, ‘o cara’ ainda cria um negocinho chamado MTV.
E assim a música se vai. Nossos sonhos, nosso espírito. Os desejos de transbordar todos os sentimentos e emoções num solo de 2 minutos. Final. ‘O cara’ acaba com tudo. Pois assim é a vida, levem essa lição para a casa. A vida é uma droga”.

Posso estar ter escrito coisa demais e esquecido outros detalhes, mas a essência do discurso de Black é exatamente esse. No início vimos a MTV dando suporte a antigos e esquecidos cantores, isso através de Unplugged’s e aparições na sua premiação anual de clipes. Hoje, a realidade é bastante distinta. Tanto que, já há alguns anos, o canal extinguiu os clipes, tendo uma programação recheada de reality shows e programas de formato Quiz.
A MTV como maquinário publicitário e potencial lucrativo é uma realidade indiscutível. Todavia, onde fica o valor intelectual e até mesmo histórico do canal? Antes de qualquer coisa, lembre-se: estamos falando de um veículo de comunicação. Pouco me importa se é ESPN, Capricho ou Tititi. Responsabilidade social deve fazer parte de sua conduta de ética. E, na MTV, vejo essa primordial característica de um formador de opinião “deixada meio de lado”.
É aí que entra a VH1.

Não que o citado canal seja um modelo de boa programação. Muito pelo contrário, lá também são exibidos reality shows de péssima qualidade (com o perdão do pleonasmo) e horrorosos programas enlatados dos Estados Unidos e from UK. Porém, observo na VH1 uma visão nostálgica e pop cultural melhor planejada que na MTV. E boa parte dessa irrisória vantagem (se é que isso existe) deve-se as suas hilárias vinhetas.
Sim, é verdade que as vinhetas são usadas de forma sarcástica, é verdade que elas subliminarmente retratam as esquisitices e bizarrices vividas nos anos 70 e 80 e é verdade que essa utilização desvairada ridiculariza uma significativa era do pop art e da música. Mas, tirando isso, as vinhetas são animais.
A começar pela seleção das músicas. Creio - e prefiro acreditar - que os produtores da VH1 não se preocuparam em marcar o espectador somente pelo visual dos clipes, mas também pela sonoridade. A grande maioria dos trechos é de canções que, de uma forma ou outra, marcaram. Pra resumir, é aquela música chiclete que faz você pensar: “já ouvi essa merda, só não sei onde, quando e não faço a menor idéia de quem canta.”. E estamos aqui para isto.
Com o auxílio de um indispensável aliado, o Vídeo-Cassete (ainda tem hífen?), passei algumas horas assistindo os comerciais da VH1 e gravando vinhetas. Mais algumas horas para decupar a fita, anotar trechos da músicas e pesquisar no Google seu cantor e título. Tudo isso para que? Para descobrir que no Youtube já haviam todas as vinhetas à total disposição.
Essa tal Internet vai longe.
Uma das vinhetas mais repetidas é a grande pérola de refrão minimalista do Trio. Aliás, o Trio é pioneiro na arte de fazer um refrão de sucesso que não quer dizer coisa nenhuma. O grupo alemão fez muito sucesso em 1982 com uma das mais estranhas músicas que se tem na história. Inclusive, a pérola ganhou uma versão em português: “Dá beijinho nas meninas? Dá, dá, dá…”.
Da Da Da deu tão certo que ela foi parar num comercial da Pepsi. Convenhamos: uma verdadeira afronta a Sá e Guarabyra.
Quando John Travolta disse para Olivia Newton John que, apesar do sucesso gigantesco de Grease, ela não devia largar a música, ficou claro que fazer uma continuação de Embalos de Sábado a Noite não seria sua maior burrada. No clipe de Physical Olivia Newton John é uma mistura de Donna Summer com Mark Knopfler.
Música bastante adequada para você ouvir enquanto malha. Só não deixe ninguém saber disso.
Direto do auge do New Wave oitentista, o Bow Wow Wow deu sua mensagem: I Want Candy. Mas, calma lá, o Bow Wow Wow merece um parênteses.
Nelson Motta definiu bem esse estilo Men At Work e New Romantic. Algumas bandas querem deixar uma mensagem. Outras, querem emocionar. Também há as que somente querem ganhar dinheiro. E, por último, há o Bow Wow Wow. Uma banda que apenas que tocar Rock And Roll despretensioso.
E dane-se o que acharem disso.
Groove Is In The Heart é um belíssimo exemplo de som que voltou a ativa depois de uma repaginada. O que era brega, tornou-se cult. E o Deee-lite acertou em cheio aproveitando a nova febre que sua principal canção causou na metade dos anos 90.
Em 1991 o grupo tocou durante o Rock in Rio. O lendário baixista Bootsy Collins, membro do Rock and Roll Hall of Fame e do Parliament-Funkadelic há um bom tempo, fazia parte dessa banda que foi um verdadeiro marco para a popularização da house music.
Um dos grandes - talvez o maior - aborto da década de 80. Pouco antes de comprar os direitos das músicas escritas por ele, Michael Jackson decidiu chamar Sir Paul McCartney para um dueto. Não satisfeitos com a atípica junção, os excêntricos decidiram que o clipe seria rodado no melhor estilo Western. E lá foram eles.
Say. Say. Say., como não podia ser diferente, fez um enorme sucesso - mas não tanto quanto The Girl Is Mine, a primeira parceria da dupla. A Billboard listou Say. Say. Say. como umas das 35 maiores músicas de todos os tempos. Um pequeno exagero, diria eu.
O clipe, olha, é vexatório. Nunca imaginei Michael Jackson e Macco passando creme de barbear juntinhos. Mas, vá entender os gênios…
Verdade que ainda faltam algumas vinhetas. Mas, como avisado anteriormente, há no Youtube alguns canais com – senão todas – a maioria das vinhetas do HV1. Lá consta o nome da música e o seu cantor.
Eis uma verdadeira mão na roda para quem fica horas quebrando a cabeça tentando lembrar o nome da canção naquele estranho clipe que aleatoriamente surge na programação do canal.
Tipo, nós.
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¹ Vendo: Monitor Samsung SyncMaster 730MP LCD/TV 17 polegadas.
² Feliz 2009!
Fred Fagundes
























